quarta-feira, 4 de novembro de 2026
Tenho Dito

O Perfil vulgar da Omissão

Em tempos de barbárie; Barbas de molho.

Por Dilto Fernandes

3 de novembro de 2026 · 4 min de leitura

O perfil vulgar da omissão

Artigo de opinião | Tenho Dito

Sempre me perguntei como as coisas chegam a determinados pontos. Como regimes autoritários avançam? Como sociedades permitem que democracias e repúblicas sejam gradualmente corroídas? A história do fascismo, do comunismo e de tantas outras experiências autoritárias mostra que a deterioração de uma sociedade também depende daqueles que assistem a tudo sem reagir.

Acredito que a omissão nem sempre nasce da ignorância. Muitas vezes, nasce da conveniência. A justiça parece trivial para quem não está sendo injustiçado. E, quando defender aquilo que é certo pode custar algum benefício, privilégio ou tranquilidade, muita gente prefere o silêncio.

O Brasil oferece exemplos que deveriam provocar indignação muito além dos diretamente afetados: os desdobramentos do inquérito das fake news, as consequências das condenações do 8 de janeiro, senhoras idosas condenadas a 14 anos de prisão, ou coisa semelhante, Uma mãe de família cabelereira, que poderia muito bem ser aquela sua vizinha, ou amiga da sua esposa, ou sua colega de academia; Condenada a 14 anos de cadeia por escrever com batom em uma estátua; A morte de um homem na prisão apesar de recomendações para que recebesse tratamento fora do cárcere e o caso de Filipe Martins, cuja prisão continuou mesmo após derrubada a acusação de que teria viajado ao exterior.

Como jornalistas, juristas, empresários, estudantes e pessoas esclarecidas conseguem assistir a tudo isso sem demonstrar um incômodo proporcional?

Aliás, frequentemente converso com pessoas esclarecidas, inclusive empresários e gente relevante em contributos ao país, e percebo um comportamento curioso. Algumas parecem mais preocupadas em encontrar imperfeições, incoerências ou contradições em quem denuncia uma injustiça do que em compreender a gravidade da própria injustiça. Como se o erro de quem reclama justificasse o absurdo praticado contra ele.

Existe um abismo entre não ser perfeito, cometer erros e até apresentar incoerências, e protagonizar ou tolerar atrocidades que pessoas verdadeiramente comprometidas com o bem jamais deveriam aceitar. Essa falsa afetação de virtude, que exige perfeição de quem denuncia enquanto relativiza a maldade de quem a pratica, tornou-se uma das formas mais sofisticadas de omissão.

Tive uma breve experiência na política, como candidato a vereador. Pude conviver com lideranças, sentar à mesa e observar o funcionamento do sistema por dentro. Vi como o pragmatismo político frequentemente sufoca a vocação, as convicções ideológicas e as causas públicas, manipulando tudo conforme os interesses de quem detém o poder.

Percebi também que o político tradicional brasileiro é, em grande medida, uma representação do próprio comportamento da sociedade. O brasileiro médio quer justiça, mas não quer pagar o preço de defendê-la. Não quer perder a viagem, o churrasco, a tranquilidade financeira ou a rotina confortável. Quer a mudança, desde que ela não provoque grandes transtornos.

É o cidadão que deseja sair do berço esplêndido, mas não aceita o desconforto de colocar os pés no chão.

É justamente nesse comportamento que encontro a explicação para a força do Centrão. Um agrupamento que absorve setores da centro-direita, do centro e da centro-esquerda, acomodando interesses e preservando posições. Ele representa politicamente esse brasileiro que procura sempre um muro onde possa se acomodar.

E essa representação tem rostos. Hugo Motta e Davi Alcolumbre simbolizam muito bem essa lógica: a preservação do próprio espaço de poder acima do enfrentamento de injustiças e da defesa de princípios. É uma política cada vez mais preocupada com a própria influência e cada vez menos comprometida com a representação popular.

Depois da minha experiência eleitoral, decidi que não quero seguir pelo caminho da política como candidato. Mas continuo enxergando a política como vocação. Quero exercê-la pela comunicação, pela influência, pela apresentação de argumentos e pela capacidade de dar voz a sentimentos e convicções que tantas pessoas compartilham.

Porque influenciar consciências também é fazer política.

Há uma frase bastante conhecida, frequentemente atribuída a Dante Alighieri: “Os lugares mais quentes do inferno estão reservados àqueles que permanecem neutros em tempos de grande crise moral.” A autoria dessa formulação não é comprovada, mas seu significado traduz exatamente a reflexão que proponho. A palavra vulgar também significa comum, ordinário, aquilo que pertence à maioria. E talvez esse seja o aspecto mais perturbador: a omissão não é uma exceção no Brasil. É um comportamento disseminado. É o perfil de quem olha primeiro para o próprio umbigo e só depois, quando sobra conveniência, para o que acontece ao redor.

Um país que assiste à injustiça e não reage não tem futuro. Está condenado a normalizar a covardia, relativizar a maldade e chafurdar cada vez mais no poço da degradação moral.

O Brasil não chegou à situação em que está apenas pelas mãos daqueles que praticam as injustiças. Chegou também pelas mãos daqueles que, podendo enfrentá-las, escolheram não fazer absolutamente nada.

*Tenho dito.

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